| Fernando Veludo/NFactos |
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“Podem vender o banco, mas primeiro paguem o que nos devem”; “Onde estão as nossas economias, de uma vida inteira de trabalho”; “Digam-nos como vão pagar o nosso dinheiro”; “Depositámos no BPN e não na SLN”; “Fomos enganados com autorização do Banco de Portugal”. As faixas e cartazes ficaram à porta do balcão do BPN na Avenida de França, no Porto, mas o interior ficou completamente tomado.
E ficou gente do lado de fora. Cerca de uma centena de cliente desta instituição bancária pretendia entrar no balcão e exigir o dinheiro que haviam investido. Mas os funcionários nada tinham para dizer, ou fazer. Nem o dinheiro para entregar.
O objectivo desta concentração, explica ao PÚBLICO o presidente da Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Clientes pelo BPN, António José Henriques, “é chamar a atenção da actual administração do BPN, e do Governo, para que também estão em causa mais de duas mil pessoas lesadas, e que há 200 milhões de euros que foram depositados, a prazo e com garantias, e que foram transformados em aplicações financeiras que foram vencidas e não pagas”. “É uma mega-fraude”, continua.
Uma grande parte dos clientes que esta manhã está concentrado no balcão do BPN é proveniente de Fafe, e chegou a ouvir-se, por várias vezes, a intenção de enveredar pela proverbial justiça daquele município: “Ainda vamos reaver o dinheiro, nem que seja à paulada”, dizia uma mulher, irada.
José Lemos, a seu lado, pedia calma, e contava: “Fizemos um depósito a prazo, de 365 dias, com 5,5 por cento de juros. Venceu a 12 de Setembro. Não pagaram nada. Nem juro nem capital. Disseram-nos que tínhamos de esperar que ficasse resolvida uma situação na Marina Park, que nem sabemos o que é”. “Deve ser uma casa de alterne”, ripostava, de novo a mulher. Que não, diz José Lemos: “pelos vistos é uma marina em Albufeira, mas ninguém nos disse que o dinheiro ia ali ser aplicado”, terminou.
Os clientes insistem em que foram enganados, que ninguém os alertou que estavam a fazer aplicações de risco, juram que não assinaram nenhum papel a dar autorização ao banco para fazer essas aplicações. “Foram depósitos a prazo simples. Nada nos levaria a desconfiar de problemas, até porque as taxas de juro nem sequer eram muito elevadas face à concorrência. O depósito de 100 mil euros que eu fiz no BPN iria ter uma remuneração de Euribor mais 1,5 por cento. Nessa altura, noutro banco, fiz uma aplicação de seis por cento. Não tinha razões para desconfiar”, explica Augusto Sousa.
O que este cliente não consegue explicar é porque é que esse dinheiro acabou em aplicações que desconhecia. Albino Moreira, septuagenário, tira do bolso as cartas que recebeu do banco, com o timbre do BPN, a descrever “as aplicações financeiras a prazo” que detinha naquela instituição, e que, mais tarde, se revelaram ser investimentos que venceriam em 2014, 2015 e 2016. E, garante, ninguém o avisou de que os prazos seriam esses.
O distrito do Porto é aquele que, no país, por ter maior concentração de balcões do BPN – 35 – e é também aquele em que há maior número de clientes lesados, seguindo-se Leiria, segundo o presidente da Associação. “O BPN tem muita implantação no Norte, e está bem disseminado nos meios rurais, onde o gerente de um banco é ouvido como um padre. E a forma como em alguns locais foi aplicado o dinheiro dos clientes, sem dar esclarecimentos, ou ter em conta o perfil e até mesmo a idade deles, é escandaloso”, contesta António José Henriques.
A notícia da intenção do Governo de reprivatizar o banco é recente, e também por isso a Associação de Defesa dos Clientes lesados não se quer pronunciar, sem conhecer o caderno de encargos. Mas, diz António José Henriques, querem "acreditar que antes de o banco passar para fora da esfera do Estado, este possa resolver a situação dos clientes e associados”.
Notícia actualizada às 12h35