| Manuel Roberto (arquivo) |
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| O número de portugueses à procura de emprego está a aumentar |
A crise económica ainda se faz sentir. Segundo os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) ontem divulgados, o número de desempregados atingiu, no terceiro trimestre deste ano, um novo máximo histórico desde 1986 (9,2 por cento no 3.º trimestre).
Só desde Junho de 2008, quando se iniciou a retracção do emprego fruto da crise económica, destruíram-se 210 mil postos de trabalho e a taxa de desemprego saltou de 7,3 para 9,8 por cento.
O número de desempregados atingiu no trimestre passado 548 mil pessoas, mais 26,3 por cento face ao mesmo período de 2008 (mais 40 mil pessoas). Ou seja, manteve-se a trajectória ascendente desde o início do ano. Só no último trimestre a taxa de desemprego passou de 9,1 para 9,8 por cento.
Mas a realidade do desemprego ultrapassa o conceito estrito das regras comunitárias. Estatisticamente, um desempregado é aquele que, no período do inquérito, não tinha trabalho (remunerado ou não), estava disponível para trabalhar, mas procurou trabalho. Não se verificando estas condições, cai no universo dos inactivos. Ora, caso se incluam os inactivos disponíveis para trabalhar e os inactivos já desencorajados, a taxa de desemprego salta para 11,7 por cento no terceiro trimestre deste ano. Neste último trimestre, o número de desempregados em sentido lato passou de 598 mil para 668 mil pessoas.
A subida pronunciada do desemprego coincide com dois fenómenos: a quebra prolongada do emprego e a redução da população activa.
Primeiro, desde o segundo trimestre de 2008 que o emprego está a cair. Foram mais de 210 mil postos de trabalho perdidos em pouco mais de um ano. Destes, dois terços corresponderam à destruição de empregos por conta de outrem (contratos permanentes e contratos a prazo) e o outro terço de trabalhadores contabilizados como por conta própria.
A destruição de emprego afectou primeiro o sector agrícola e o industrial. Desde o início de 2008, verificam-se aí quebras de emprego, mas sobretudo nos últimos trimestres. O emprego industrial está a cair sete por cento face ao valor do terceiro trimestre de 2008, que representava já uma quebra de 4,7 por cento face ao de 2007. No sector dos serviços, o emprego parece ter-se aguentado melhor e verifica quebras apenas desde o segundo trimestre de 2009.
Em segundo lugar, a subida da taxa de desemprego reflectiu também a queda da população activa, visível desde há um ano. No terceiro trimestre de 2009, a quebra foi de 1,1 por cento face ao mesmo período de 2008 no que toca aos que abandonaram o mercado de trabalho e passaram para a população inactiva. Esse facto, se tende a fazer a taxa de desemprego crescer mais rapidamente, reduz - por outro lado - o universo dos desempregados e atenua essa subida. Atrasos na recuperação
Os dados mais recentes levam economistas contactados pelo PÚBLICO a prever a subida a breve trecho da taxa oficial de desemprego para dois dígitos. A Confederação do Comércio e serviços de Portugal estima mesmo que isso aconteça já no final do ano.
Os economistas José Silva Lopes, António Bagão Félix e Octávio Teixeira são unânimes nessa previsão e no atraso da economia em recuperar o emprego.
"A rapidez da subida da taxa de desemprego surpreende-me um pouco", começa Silva Lopes. "Mas a verdade é que já se sabia, pelo que aconteceu em Portugal no passado e acontece nos outros países, que quando a economia começa a recuperar ainda é preciso esperar um a dois anos para que o desemprego comece a cair. Infelizmente, o ano de 2010 ainda deverá ser de subida do desemprego e, com toda a probabilidade, a barreira dos 10 por cento será ultrapassada." E insiste na sua ideia de que os aumentos salariais deverão ser contidos.
Bagão Félix concorda. "Não são números surpreendentes", afirma. "De qualquer forma a subida é impressionante." Na sua opinião há muitas pessoas que estão a abandonar o mercado de trabalho. "Não porque queiram, mas porque se sentem desencorajadas e desistem." O desemprego vai continuar a subir e atingirá "certamente os dois dígitos".
O mesmo prevê Octávio Teixeira. Mas chama atenção precisamente para essa parte do desemprego que não é visível nas estatísticas. "É ainda de assinalar que a taxa de desemprego no sentido lato já vai em 11,7 por cento, algo que em Portugal não tem paralelo em épocas mais recentes. Esta situação suscita a necessidade de melhorar as condições do subsídio de desemprego, seja com um aumento dos prazos, seja com uma facilitação de acesso maior do que a recentemente efectuada pelo Governo."