Recomeçar a laboração da empresa com 400 a 450 trabalhadores dos 984 actuais, e prolongar o
lay-off durante mais quatro meses, são algumas das medidas da proposta de viabilização da multinacional alemã de calçado Rohde, em Santa Maria da Feira, que se encontra num processo de insolvência.
As propostas vão ser analisadas no próximo dia 20 na assembleia de credores, que terá lugar num pavilhão gimnodesportivo da cidade da Feira, para permitir a presença dos quase mil operários, os únicos credores, com créditos reclamados na ordem dos 13,7 milhões de euros. A decisão está, portanto, nas mãos dos trabalhadores. Basta 34 por cento de votos contra para o projecto de recuperação da maior empregadora nacional do sector de calçado não avançar.
A redução a zero do capital social da actual sociedade, de forma a romper com todas as ligações à casa-mãe alemã, e a transformação da empresa em sociedade anónima com um aumento de capital social mínimo de um milhão, também fazem parte do plano a que o PÚBLICO teve acesso. Esta alteração na orgânica da firma poderá ser feita mediante a entrada de um novo investidor ou pelos quadros da própria empresa. O que significa que a actual administração será substituída e uma nova será eleita pelos novos sócios, em assembleia-geral. “Os trabalhadores-credores que o manifestarem poderão participar como sócios no capital social da empresa, para além da conversão dos seus créditos em capital social, também mediante a entrada de numerário no aumento de capital social a ser realizado”, lê-se.
A Rohde sempre trabalhou na dependência da casa-mãe alemã e, portanto, não criou uma clientela própria. Neste momento, estão a ser feitas negociações para a celebração de contratos comerciais com empresas do sector, entre as quais quatro alemãs e uma austríaca, de forma a firmar contratos de fornecimento e de agenciação de calçado. Com a garantia de colocação da mercadoria no mercado internacional, prevê-se que a Rohde possa facturar 10,8 milhões de euros por ano. A manutenção do lay-off por mais quatro meses – a suspensão do horário de trabalho começou a 11 de Setembro para a maioria dos trabalhadores – visa precisamente dar tempo para consolidar esses acordos para a venda internacional dos produtos fabricados pela Rohde, que está assim disponível para colocar a sua colecção no exterior. “É do interesse de todos os trabalhadores a retoma da actividade produtiva e o aproveitamento das diversas competências existentes na empresa, com utilização de meios físicos e humanos da Rohde”, salienta-se na proposta.
No âmbito de uma possível recuperação económica e financeira, estão também a ser encetadas negociações com o Fundo Imobiliário Especial de Apoio às Empresas (FIEAE) para garantir o pagamento das indemnizações aos cerca de 500 trabalhadores que terão de cessar o seu contrato, caso a proposta de viabilização seja aprovada. Estas conversações pretendem igualmente assegurar os 30 por cento dos salários que a empresa tem de comportar no regime de lay-off, ficando os restantes 70 por cento a cargo da Segurança Social.
A proposta sugere ainda a continuação da assembleia de credores, na última semana de Fevereiro, para a votação do plano definitivo para a viabilização da empresa, já com os conteúdos dos contratos comerciais que entretanto venham a ser estabelecidos. No caso do encerramento da Rohde, sabe-se que o valor da venda de todo o património da empresa não ultrapassará os 4,5 milhões de euros. Feitas as contas, cada um dos trabalhadores credores não receberá, no máximo, mais do que 30 por cento dos seus créditos, após a liquidação da estrutura empresarial.