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Pneus chineses discutidos por Obama em Pequim
Um funcionário de uma fábrica de pneus na provincia de Anhui, na China, trabalha no armazem. As exportações de pneus da China para os EUA e as taxas recentemente impostas por Washington são um dos temas a debater durante a visita de Barack Obama à China. Fotografia: REUTERS/Stringer

 
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Trabalho
Anulação de inscrições de desempregados coincidiu com períodos eleitorais
02.11.2009 - 09h15
Por João Ramos de Almeida 
Carlos lopes/PÚBLICO (arquivo)
IEFP garante que não houve anulações anormais
A direcção do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) recusa dar números. Mas cálculos do PÚBLICO mostram correlações em três eleições.

Nos meses anteriores a três eleições legislativas, os centros de emprego anularam inscrições de desempregados a um ritmo semelhante ao da entrada de novos desempregados. O resultado foi a contenção da subida do desemprego registado. Os responsáveis do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) negam qualquer manipulação.
A questão ilustra-se bem. Só em Setembro passado, verificou-se uma inscrição recorde de 72,6 mil novos desempregados, mas o desemprego registado subiu menos de 9 mil pessoas (de 501,6 mil para 510,4 mil pessoas). O que se passou nesse mês com dezenas de milhares de pessoas?
Essa é a pergunta que o PÚBLICO tem feito, meses a fio, ao IEFP, a entidade pública responsável pela política de emprego. E a resposta é a de que esses valores não são divulgados porque só o pedido "revela um preconceito inaceitável" (ver caixa).
Na falta deles, o PÚBLICO compilou várias séries de números divulgados pelo IEFP. Esses números reconstituem a evolução do desemprego efectivamente entrado nos centros de emprego (reduzido apenas das colocações em empregos). E, comparando-o com o desemprego oficial registado, permitem calcular as anulações feitas pelos serviços do IEFP.
Os números obtidos pecam por excesso, já que o total de anulações se deve a diversos motivos. De acordo com os dados facultados pelo IEFP (dados anuais e não mensais), entre 2003 e 2008 metade de uma média anual de 500 mil anulações deveu-se à falta do desempregado à convocatória e um quarto porque os desempregados encontraram sozinhos emprego. O restante quarto reparte-se, entre outras razões, por formação profissional, porque foram alvos de medidas activas de emprego, suspenderam o subsídio de desemprego, emigraram ou reformaram-se.
Por si só, estes elementos revelam que as actividades de controlo pesam nas anulações. Mas não se conhece o motivo efectivo ao longo dos meses e se houve uma concentração de um deles antes das eleições.
Membros do Governo consideram, porém, que esse é um método de - sem violar a lei - gerir o volume de anulações. Mas se a anulação se deveu a políticas activas de emprego esse facto até é positivo (ver texto ao lado).
Por outro lado, pode ser sintomático que as convocatórias por correio sejam a maior causa de polémica e de recurso de anulação de inscrição. Igualmente importante é o facto de a comissão de recursos ter dado razão a 25 por cento das queixas dos desempregados (ver texto ao lado).
De qualquer forma, a análise terá de ser mais cuidada quando o IEFP disponibilizar os valores que recusa fornecer.

O que mostram os números
Para já, os números mostram uma correlação entre a inscrição em cada mês de novos desempregados e a anulação de outros desempregados inscritos num ritmo semelhante. Quando há mais desempregados inscritos, as anulações sobem. Quando há menos, as anulações descem. E essa correlação apenas se verifica nos meses anteriores a processos eleitorais. Foi o caso dos últimos meses dos governos de António Guterres, de Santana Lopes e, mais intensamente, do primeiro Governo José Sócrates.
Atente-se aos gráficos. Apesar do carácter grosseiro dos números, o paralelismo entre a entrada de desempregados e a anulação é visível.
Comparando os dados do IEFP para o desemprego sem anulações ("desemprego potencial") com os do único organismo estatístico nacional - o Instituto Nacional de Estatística - fica patente que os dados do IEFP são sempre superiores aos do INE. Mas, nos períodos próximos das eleições, as duas linhas aproximam-se. Em 2008/2009 coincidem mesmo e, nalguns meses, os dados do INE ultrapassam mesmo os do IEFP.

Três eleições legislativas
Outra coincidência é o facto de os processos eleitorais em causa terem sido fases de subida do desemprego e de forte campanha política.
O primeiro período começa no Verão de 2001. O primeiro-ministro António Guterres demitira-se após o desaire eleitoral autárquico de Dezembro de 2001 e as eleições legislativas antecipadas foram marcadas para 17 de Março de 2002. O fluxo de novos desempregados começa a subir em Julho e atingiu valores elevados em Janeiro e Fevereiro de 2002. A correlação entre as anulações e a entrada de desempregados é de 70 por cento desde Julho de 2001 a Março de 2002. Apesar da anulação de desempregados inscritos, o desemprego registado subiu de 312 mil para 339 mil pessoas e o PS perdeu as eleições.
O segundo caso parte de Junho de 2004, no rescaldo da crise de 2003. A entrada de desempregados começou a acentuar-se. O Governo PSD declarou o fim da recessão, enquanto a oposição olhava para a subida do desemprego. Nesses meses, o ritmo das anulações seguiu o das novas entradas, mas há apenas uma correlação nos últimos sete meses do mandato (78 por cento). O desemprego registado subiu de 446 mil para 487 mil até Fevereiro de 2005, antes das eleições legislativas antecipadas. E o PSD de Santana Lopes perdeu as eleições.
No terceiro caso, o desemprego começou a crescer sustentadamente em Setembro de 2008, atingindo valores recordes desde o início de 2009. Se o perfil das duas curvas é elucidativo, a maior sintonia verificou-se a partir de Março de 2009 até antes das eleições. Nesses meses, a correlação é de 73 por cento por cento. De Setembro de 2008 a Fevereiro de 2009, a diferença entre os novos desempregados entrados e os anulados foi de 110 mil pessoas. Mas de Março a Setembro de 2009 - um período mais acirrado de desemprego - o saldo líquido foi ainda assim inferior - 81 mil pessoas. Ou seja, no total desses meses, inscreveram-se 786 mil novos desempregados e foram anuladas 595 mil inscrições.
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"O 'monstro' não se controlou. Pelo contrário, parece totalmente descontrolado"
Helena Garrido, "Jornal de Negócios", 20-11-2009
 

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