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60 mil
portugueses perderam o seu posto de trabalho na construção civil espanhola. Em 2008 eram cerca 90 mil, actualmente caíram para 30 mil. E o Sindicato dos Trabalhadores da Construção do Norte estima que fiquem apenas 15 mil, esperando mais despedimentos devido à grande queda no mercado imobiliário do país vizinho.
 

Todos os destaques do mundo dos negócios e da Bolsa.
 

 

 
Morreu aos 81 anos
José Manuel de Mello: o fim de um ciclo
17.09.2009 - 08h13
Por Cristina Ferreira, Luís Villalobos 
A morte de José Manuel de Mello aos 81 anos, ocorrida ontem de madrugada, sublinha o fim de um ciclo, o dos grandes empresários do pré-25 de Abril.

De todos os grandes industriais e banqueiros dessa altura, que foram alvo das nacionalizações de 1975, apenas Jorge de Mello, irmão mais velho de José Manuel de Mello, está vivo, embora afastado da vida pública.

Herdeiros do grupo CUF, o maior conglomerado privado português do século XX, os dois irmãos tiveram uma vida em paralelo desde que assumiram a liderança até às nacionalizações em 1975. Tal como Jorge de Mello, José Manuel assumiu as rédeas da CUF após o falecimento do pai em 1966, Manuel de Mello, que se casara com Amélia da Silva, a única filha do fundador, Alfredo da Silva.

Foi nessa altura que a CUF apostou no desenvolvimento de dois grandes projectos: a fusão entre instituições que iria dar origem ao Banco Totta & Açores, e a inauguração, pela Lisnave, do estaleiro da Margueira em Almada. A CUF evidenciava-se ainda como sendo uma verdadeira escola de quadros. Os amigos referem que os dois irmãos se distinguiam pelas suas personalidades. Se José Manuel marcava pontos pela irreverência e ousadia (foi ele que lançou a ideia de criar a Lisnave), Jorge distinguia-se pelo seu lado mais conservador e formal. Mas formavam uma dupla coesa, que sobreviveu aos tempos conturbados da revolução.

João Dotti, ligado desde cedo ao grupo e que ficou com a Fisipe, considera que José de Mello foi um homem de “coragem, determinação e 'politicamente incorrecto’”. “Foi um empreendedor e a criação da Lisnave e da Setenave ficaram de modo incontornável ligadas à sua figura, ao seu entusiasmo e determinação”.

Os quatro irmãos (Jorge, José, Maria Cristina e Maria Amélia) tomavam as decisões estratégicas através da Sogefi, a holding que englobava todos os activos. Um dos projectos que estavam em estudo, conforme confessou o empresário ao PÚBLICO em 1994, numa entrevista a Maria João Avilez, era a internacionalização. No entanto, a estratégia seria interrompida pela revolução. No dia 25 de Abril de 1974, José de Mello tem um dia normal de trabalho, mas depressa começa a compreender que a época era de mudanças. E junta-se a António Champalimaud (seu cunhado), Manuel Ricardo Espírito Santo Silva, Joaquim Aguiar e Leonardo Ferraz de Carvalho, para criar o Movimento Dinamizador Empresa-Sociedade e ajuda a lançar a CIP. O ex-presidente da CGD, João Salgueiro, salientou que José Manuel de Mello se distinguia pelo facto de assumir responsabilidades “no panorama cívico português”.

Já antes do 25 de Abril, recorda, procurou encorajar uma transição do regime. “Foi flagrante a posição que tomou durante a reeleição de Américo Tomás [reeleito Presidente da República em 1972] quando votou contra”, observou Salgueiro, lembrando que José Manuel de Mello “procurou nessa altura apoiar uma candidatura alternativa”. Mas a indicação do general Spínola para substituir Américo Tomás não se viria a concretizar. E, já depois da adesão de Portugal à CEE, promoveu diversas iniciativas “para envolver a classe empresarial nas reformas de fundo que eram cada vez mais necessárias”.

Embora não tenha passado pela prisão (“fui dos poucos capitalistas que nunca foram presos”, afirmou na entrevista ao PÚBLICO), não escapou ileso à vaga de nacionalizações. Tudo o que era o grupo CUF acabou por ir parar às mãos do Estado, ficando apenas, tal como os irmãos, com uma pequena participação na Lisnave (14 por cento). O seu grupo era então tão grande e complexo que o Governo revolucionário foi forçado a fazer um decreto especial para nacionalizar a CUF. Já no rescaldo da revolução, começou a reconstruir um grupo empresarial, mas afastado do irmão. Acaba por partir para a Suíça, onde a família fica durante cerca de cinco anos. O seu filho Vasco (o mais velho de 12 herdeiros), na altura com 18 anos, prossegue os estudos ao frequentar o curso de Gestão de Empresas.

Vasco Vieira de Almeida, nomeado para liderar o Ministério da Coordenação Económica no primeiro Governo a seguir ao 25 de Abril e que conheceu José Manuel de Mello há cerca de quarenta anos, diz que o empresário era “directo e exigente consigo e com os outros, compreendeu e aceitou a evolução dos tempos, sem nostalgias e virado para o futuro”. O apostar no futuro em vez de olhar para o passado é, aliás, uma das características mais apontadas por quem conviveu de perto com José Manuel de Mello. Joaquim Aguiar, ligado ao grupo já mesmo antes do 25 de Abril, recorda que, “na diversidade das circunstâncias que viveu, foi sempre um homem do futuro. É esse seu exemplo, essa sua determinação em começar de novo, que o manterá vivo mesmo depois de desaparecer”. António Nogueira Leite, administrador da CUF, destaca, por sua vez, que o empresário “foi um homem que andou sempre à frente do seu tempo e que sempre inspirou os que com ele colaboraram”.

A preferência pelo futuro face ao saudosismo é evidente nas suas próprias palavras. Na entrevista ao PÚBLICO em 1994, afirma que já esquecera o 25 de Abril. “Foi um facto que sucedeu e já não há razão para pensar nele.”

Na final da década de 70 e início da de 80, começou a reconstruir o seu grupo com novas empresas. O passo maior surge em 1988, com a criação da UIF, que adquire uma licença de corretagem, regressando à área financeira. Logo depois ficam com a Sociedade Financeira Portuguesa, que esteve na base do Banco Mello, juntamente com aquisição da UBP. Várias outras empresas que tinham pertencido ao grupo voltaram para José de Mello, como a Império, em 1992, que incluía também o Hospital da CUF. Mas também venderam vários activos, como a Lisnave ou a Soponata, entretanto readquirida.

No final da década passada, José Manuel de Mello começava já a afastar-se da gestão dos negócios, mas esteve envolvido na fusão do Banco Mello e da Império com o BCP, em 1999. No ano seguinte, o grupo começa a tomar nova forma, com a entrada no capital da Brisa, assumindo Vasco de Mello a gestão. Reformando-se em 2004, José Manuel de Mello começa então a dedicar mais tempo aos gostos pessoais na Herdade do Monte da Ravasqueira, como os cavalos e a produção de vinho. Há três anos, vítima de um acidente cardiovascular, entrou em coma, sendo hospitalizado na CUF. Ontem de madrugada acabou por morrer, já em casa, onde estava há alguns meses. O seu corpo esteve em câmara-ardente na Igreja da Boa Nova, no Estoril, local de onde parte hoje às dez da manhã para o cemitério.

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"O Plano de Estabilidade e Crescimento e as autoridades europeias fracassaram quando foram complacentes com o seu não-cumprimento. Não agora, mas durante o 'bom tempo' económico."
Vítor Bento, jornal "Público", 8-2-2010
 

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