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G7 em versão informal
Os ministros das Finanças e os governadores dos bancos centrais dos Grupo dos Sete (G7) principais países com economias de mercado insdustrializadas posam para uma fotografia durante a reunião deste fim-de-semana no Canadá. Fotografia: Chris Wattie/Reuters.

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60 mil
portugueses perderam o seu posto de trabalho na construção civil espanhola. Em 2008 eram cerca 90 mil, actualmente caíram para 30 mil. E o Sindicato dos Trabalhadores da Construção do Norte estima que fiquem apenas 15 mil, esperando mais despedimentos devido à grande queda no mercado imobiliário do país vizinho.
 

Todos os destaques do mundo dos negócios e da Bolsa.
 

 

 
João Barros, coordenador nacional da parceria entre Portugal e a universidade norte-americana de Carnegie Mellon
“Portugal tem de investir em líderes nas universidades e nas empresas”
21.06.2009 - 09h04
Por Inês Sequeira 
Miguel Manso
João Barros: "Outro mito é dizer-se que estamos muito isolados e por isso não é possível trabalhar ao mesmo ritmo ou ter o mesmo impacto internacional"
João Barros, 32 anos, lidera a nova direcção portuguesa do programa de parceria entre universidades e empresas portuguesas e a Carnegie Mellon University, nos EUA, centrado nas tecnologias de informação e comunicação. É também professor do departamento de engenharia electrotécnica e de computadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Em entrevista ao PÚBLICO, fala dos principais desafios do programa e naquilo que faz falta para que Portugal se torne mais competitivo.

Qual é o balanço que faz do programa com a Carnegie Mellon University (CMU) desde 2006 e o que se pode melhorar até 2011?

O programa tem objectivos muito ambiciosos: desde logo, catapultar Portugal para o pelotão da frente em tecnologias da informação e comunicação, em áreas onde o país tem a possibilidade de desenvolver vantagens comparativas. Para tal é preciso ter grupos de investigação muito bons e empresas capazes de utilizar os dados dessa investigação.

A parceria avançou em várias vertentes: nos programas de mestrado profissionais e de doutoramentos de grau duplo (o estudante fica com o grau da sua universidade portuguesa e de Carnegie Mellon). Temos já alunos graduados dos programas de mestrado profissionalizante que regressam às empresas e que são agora os nossos parceiros ideais para promover a relação próxima que queremos com a indústria portuguesa.

Por outro lado, arrancámos também com projectos de investigação em áreas altamente inovadoras e com grande potencial de aumento competitivo do país.

E para os próximos dois anos e meio?

Por um lado, temos de consolidar as coisas que correram bem: os programas. Quanto à frente de investigação, tem de ser consolidada e temos de focar as energias dos vários parceiros em temas e conjuntos de problemas técnicos e de investigação que contribuam da melhor forma para a competitividade do país.

Quais é poderão ser melhores para o programa?

Desde logo há uma aposta clara nas tecnologias de informação e comunicação, fazem parte de todas as futuras soluções para um leque variadíssimo de problemas que enfrentamos, desde logo a questão da sustentabilidade ambiental, envelhecimento da população, criar redes globais de produção. Em todos estes aspectos as tecnologias de informação têm um papel essencial.

Se quisermos ter redes de energia inteligentes ou automóveis inteligentes que comunicam entre si vamos precisar de tecnologias de informação e comunicação, se quisermos garantir mais acesso de toda a população às vantagens profissionais e pessoais que estas tecnologias oferecem vamos ter de arranjar interfaces entre humanos e computadores que garantam que a utilização dos dispositivos e computadores seja simples e intuitiva.

Tudo isso são desafios que colocam as tecnologias de informação e comunicação no centro da inovação e do desenvolvimento económico. Dentro dessas áreas, Portugal já tem empresas e grupos de investigação que são grandes impulsionadores dessas vertentes.

Presentemente, já temos na comunidade científica e empresarial documentos estratégicos que pretende lançar essa questão, sobre quais são as áreas focadas de tecnologias de informação e comunicação onde o país pode desenvolver vantagens comparativas.

E quais são elas?

Por um lado temos as redes de nova geração, como a fibra óptica mas também as ligações “wireless” (rádio sem fios), em que um aspecto muito importante é garantir a qualidade, robustez e fiabilidade dessas redes. Entra também como parceira privilegiada a PT que investe no programa, e está envolvida em todas as suas vertentes.

Num segundo plano temos os chamados sistemas ciber-físicos, que basicamente combinam a computação, combinação e controlo de sistemas baseados em sensores. Imagine que tem uma casa ou edifício repletos de sensores, que são capazes de recolher imensa informação do mundo físico, como a temperatura e a humidade. E com base nessas medições, são capazes de fazer inferências e de actuar, aumentando o ar condicionado para baixar a temperatura ou fechando as janelas, no contexto da casa. No contexto de edifícios, por exemplo no caso de emergências, em caso de incêndio, o sistema pode mostrar às pessoas qual o caminho seguro que as leva para longe do perigo.

Esses sistemas ciber-físicos combinam as capacidades de mostrar o estado físico de um sistema e de actuar de forma inteligente, criando a inteligência ambiente. Terão um papel a desempenhar no futuro, em particular na garantia de que não estamos a desperdiçar nem energia nem água nem nenhum dos recursos que o nosso planeta coloca à nossa disposição.

A outra área é a chamada homem-máquina ou computação centrada nos seres humanos: em vez de sermos nós a aprender a utilizar “software” ou a lidar com as máquinas, são as máquinas que comunicam connosco da forma mais natural, através de interfaces intuitivas, do rato, do ipod, que é um bom exemplo...

Existe algum limite para esta interacção homem-máquina? É que parece tudo muito bonito...

Temos projectos muito concretos nessa área.

O projecto Sinais, que é liderado pela Universidade da Madeira em colaboração com várias empresas, em que se pretende colocar sensores nos meios domésticos e nos gabinetes e depois recolher informação que permita perceber quais são os hábitos das pessoas que levam ao consumo de água e de energia.

E depois, pela interface homem-máquina, induzir comportamentos nas pessoas mais sustentáveis do ponto de vista do ambiente.

Tipo Pavlov?

Talvez com alguma comunicação, mais do que simplesmente uma acção reflexiva (sorri). Imagine que abre a torneira e que o sensor vê que a torneira está a correr, mas que não está nada debaixo: o sistema avisa de forma intuitiva e diz: “Precisa da água?” O objectivo é dar algum sinal que faça com que a pessoa tome consciência de que está a desperdiçar. É um desafio para a investigação, mas que ao mesmo tempo é muito importante para as empresas na procura de novos produtos para o mercado e de novas soluções.

Se fizermos as contas e virmos a poupança económica que as pessoas têm ao adoptar esses comportamentos, conseguimos sustentabilidade ambiental e também benefícios económicos para as pessoas, que têm de caminhar lado a lado.

Este é um projecto de investigação que envolve alunos de doutoramento e mestrado parceiros da Carnegie Mellon, relativamente à área de computação centrada nos seres humanos, na área dos sensores.

Este é também um de oito projectos que saíram da última chamada de projectos para propostas da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) no âmbito desta parceria, financiada pela FCT e que aloca parte do seu financiamento para aspectos de internacionalização e globalização.

Outro exemplo, nesta área da comunicação entre humanos e máquinas, são os aspectos da fala e em particular da língua portuguesa onde também temos projectos baseados na tradução simultânea: eu falar consigo em português e o meu interlocutor ouvir tudo o que estou dizer noutra língua em tempo real e de forma automática. Já existe uma “demo” e muitas destas coisas serão demonstradas segunda-feira no Palácio da Bolsa [no Porto, numa conferência sobre Economia 3.0].

Outra área importante é a engenharia de software, em que Portugal tem um programa de mestrado avançado. A Novabase é uma das empresas que também apoiam o programa e a Universidade de Coimbra tem um mestrado nessa área. Há ainda mestrados profissionais na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e em Aveiro, que se focam na parte de redes de comunicação, e na Madeira um programa focado na interacção humano-computador.

A área de engenharia de software é também transversal: os sistemas de bases são cada vez maiores e desenvolvidos por módulos: temos uma equipa aqui, outra ali, na China, Índia, América, que desenvolvem pedaços de software, que depois é preciso juntar num sistema que funcione.

Quando há problemas, a engenharia de software faz com que sejam possíveis de corrigir e o ideal seria que se auto-corrigissem, em particular em sistemas críticos como um aeroporto, por exemplo, em que o software tem de ser fiável.

Para que serve um doutoramento em empreendedorismo, que faz parte do programa? Para publicações de artigos em revistas científicas?

As pessoas pensam que um doutoramento é essencialmente científico, mas existe ciência em torno das questões de como se pode criar condições para que de facto a inovação surja.

Aí junta-se conhecimento de engenharia, de economia e muitos aspectos de sociologia e história, estudam-se casos de sucesso e vai-se olhar para um conjunto de dados, tentar perceber se os pólos tecnológicos são uma solução para promover a inovação ou se o segredo está na capacidade de liderança de duas ou três pessoas que se juntaram ali e formaram novas empresas.

Os alunos de doutoramento estão a estudar problemas de investigação ligados ao nosso país, mas o que me dizem da Carnegie Mellon é que Portugal tem a felicidade de ter bases de dados muito completas de segurança social, pois acabamos por tomar nota de todo um percurso profissional quase sem darmos por isso. Com estes dados disponíveis eles são capazes de tirar conclusões sobre o que é importante.

Qual é a opinião que tem sobre este doutoramento?

Mudou com este programa, não tinha a certeza se seria uma área cientifica, mas depois de falar e convidar o professor Francisco Veloso (investigador nestas áreas e docente na Universidade de Carnegie Mellon) para dar uma palestra muito específica sobre esta área de trabalho, para perceber quais são os resultados, em que ele apresentou um trabalho interessantíssimo sobre Sillicon Valey, alterei a minha opinião.

Percebi que faz sentido aplicar o método cientifico também nesse contexto, para tentar procurar soluções e propor recomendações a quem lidera para tomar decisões acerca da melhor forma de motivar a inovação e alinhar universidades e empresas.

Tem-se dito que um dos factores determinantes em Sillicon Valey foi o surgimento de uma empresa, que iniciou esse movimento. Isso pode generalizar-se para Portugal?

Sim, a Fairchild [Semiconductors]. Penso que a liderança é essencial, temos engenheiros com boa formação de base mas falta a meu ver, nas empresas e nas universidades, um conjunto alargado de líderes capazes de conceber uma estratégia e desenvolver um plano operacional que garanta que essa estratégia prossegue de forma muito profissional.

E capazes ainda de mobilizar a comunidade e promover todos os pequenos passos que é preciso dar para que se caminhe desde a investigação de base até ao produto final. Essa é uma preocupação da nova liderança.

Sou director do programa nacional e depois há dois directores científicos, Nuno Nunes da Universidade da Madeira e Diogo Gomes do Instituto Superior Técnico, e a média etária dos directores deste programa é de 35 anos.

E estamos muito preocupados em identificar quais são nas diversas instituições e empresas os líderes com quem podemos trabalhar e através dos recursos disponíveis no programa, dar capacidade a esses líderes.

Passa muito pelas pessoas?

Totalmente. Vamos distribuir na segunda-feira t-shirts” aos nossos alunos e participantes da conferência, que dizem “Programa Carnegie Mellon Portugal”, e por baixo agents of change (agentes de mudança). A ideia é que são essas pessoas, e em especial os nossos alunos, que ao passarem pelas experiências acumuladas neste programa se tornarão líderes efectivos das áreas onde estão.

E aí também o doutoramento sofreu uma evolução muito grande: lá fora e também em Portugal, o aluno típico nas áreas de engenharia que sai da universidade é uma pessoa que esteve algum tempo no estrangeiro e foi a muitas conferências defender o seu trabalho em frente à concorrência internacional, participou em muitos projectos europeus e com a indústria, e portanto está habituado a lidar com as empresas. E muitos deles tiveram oportunidade de trabalhar e de lidar com alunos mais novos nos seus projectos de fim de curso. Portanto, são recursos humanos valiosíssimos que andam muito longe do modelo académico...

Sente-se algum choque quando alguém está lá fora e depois chega cá, face ao meio académico?

Eu acho que sim, mas acho que é óptimo e necessário. Estive sete anos na Alemanha, pelo meio nos EUA com a minha família e a pessoa habitua-se, quando está numa grande universidade como a Universidade Técnica de Munique, onde me doutorei, ou na Universidade de Cornell nos EUA, a ambientes em que há discussão e uma relação muito próxima entre universidades e empresas, onde há uma certa dinâmica, e nos EUA isso é levado ao extremo...

Há quadros brancos por todo o lado no corredor, onde as pessoas estão a discutir ideias, mas é muito livre, a mais valia de discutir e trazer ideias para cima da mesa é reconhecida. Estive pela quarta vez uma semana na Universidade de Carnegie Mellon só a falar com investigadores e há salas de reuniões em todos os lados, sai-se da sala e do outro lado do corredor é a Google, um bocadinho abaixo a Intel, os engenheiros saem dos laboratórios e vão assistir a uma palestra, há constantemente palestras com pessoas que vêm de fora.

A sensação é a de estar no centro dos acontecimentos, porque a informação quase que vem ter connosco, a pessoa quase não precisa de se mexer.

Mas está lá, mas estão lá também as empresas...

A concentração de talento é impressionante. O que faz isso às pessoas? Quando são inteligentes e dinâmicas adaptam-se a esses meios ambientes e criam hábitos, habituam-se a um ambiente assim, a discutir investigação, e depois quando voltam sentem que ainda não temos essas rotinas e essa cultura científica e um ambiente extraordinariamente dinâmico em grande parte das nossas escolas.

Porquê?

Acho que é uma questão de tempo, estivemos um pouco isolados do resto do mundo e o sistema científico e tecnológico nacional é recentíssimo. Do ponto de vista científico, estamos a recuperar muito depressa.

A questão é se todo esse investimento em ciência está a ter impacto na vantagem comparativa do país do ponto de vista económico. Esse é o passo que termos de dar agora.

Temos muitos mais doutorados e cientistas e pessoas a fazer investigação do que há anos atrás, agora é preciso garantir que haja liderança para garantir que as contribuições dessas pessoas têm impacto na sociedade e na economia para além da visibilidade internacional através das publicações e das colaborações com os melhores laboratórios de todo o mundo.

Essas pessoas chegam às nossas universidades e vêm que há coisas que faltam, o que estamos a fazer é a multiplicar o número dessas pessoas insatisfeitas, que tentam fazer alguma coisa para melhorar a situação.

O que se tem dito é que depois muitas dessas pessoas voltam novamente para o estrangeiro...

Acho que isso não é verdade. Na nossa área, vejo muitos portugueses da minha geração em engenharia electrotécnica e informática – um conjunto grande de pessoas que se doutoraram lá fora com bolsas da FCT, muitas delas no final dos anos 90 - e que estão a voltar para já, com boas ofertas lá fora.

Quando regressei [a Portugal], havia uma série de mitos relativamente aos alunos: quando são muito bons não querem fazer doutoramentos, querem ir para as empresas ganhar dinheiro. Ou quando são muito bons e fazem doutoramentos querem ir para o estrangeiro. O mito número três era de que é muito difícil conseguir financiamento para projectos de investigação.

Regressei no final de 2004 e o que constatei foi que em poucos anos tinha vários dos melhores alunos dos cursos de engenharia electrotécnica e informática, e até de matemática, a virem trabalhar connosco [na Faculdade de Ciências do Porto, agora na Faculdade de Engenharia]. Passamos muito tempo a escrever propostas de investigação, nem todas são financiadas mas algumas são.

Mas são muito dependentes do Estado...

Temos neste momento também projectos com empresas, no âmbito dos projectos de consórcios europeus, que são uma fonte muito significativa de investigação e desenvolvimento. Fazem parte de consórcios que competem em Bruxelas.

E portanto o outro mito era o de que estamos muito isolados e que por isso não é possível trabalhar ao mesmo ritmo ou ter o mesmo impacto internacional, até porque o sistema científico internacional se gere muito por redes.

Isso é realmente um mito? A Google cá tem um escritório de vendas e marketing, nem sequer tem uma equipa de desenvolvimento...

Mas nada me impede de ir apresentar trabalho a uma conferência internacional e estar lá o CEO (presidente executivo) da Google, que me indica pessoas da área com quem devo falar e faz-se uma parceria. Há muitos exemplos de grupos de investigação que fazem isso.

Um dos exemplos que tenho é de quando vou a uma conferência a qualquer lado, guardo sempre dois ou três dias para visitar empresas ou universidades à volta do sítio onde estiver. Tipicamente o que acontece é que a pessoa fala com colegas e dizem: “Quando estiveres por cá, aparece e vem dar uma palestra”.

Outro hábito que temos de ganhar é o de comunicar, formar redes de pessoas. Há muitíssimas mais oportunidades e financiamento disponível do que as pessoas estão a aproveitar.

Nesta parceria temos financiamento disponível para enviar um número muito significativo de professores durante três ou quatro meses para Carnegie Mellon onde vão poder ter as mesmas condições de trabalho que os professores de lá. Vão estar envolvidos na investigação, na parte do ensino...

Basta candidatarem-se?

Para já através das faculdades, a partir de Setembro vamos ter esse programa de intercâmbio de faculdades na direcção, em que os professores interessados podem escrever directamente à direcção: numa folha A4 colocam porque querem ir e o que querem fazer e neste momento temos recursos disponíveis para fazerem isso. E os professores têm os seus sabáticos e também podem negociar coisas dentro dos seus departamentos para benefício dessas experiências.

E portanto, há inúmeras oportunidades para os portugueses se inserirem nessas redes, hoje em dia com a Net e com voos relativamente baratos e financiamento.

E nós próprios como país temos vantagens comparativas excepcionais, não é só o facto de sermos um país muito bonito. As nossas próprias universidades têm campus novos e agradáveis, muitos deles melhores do que na Alemanha ou nos EUA, mas não são os edifícios que fazem as escolas, são as pessoas.

E portanto com essas condições conseguimos trazer para cá pessoas muito boas, precisamos de um pouco mais de audácia na gestão desses contactos, no sentido de que na Alemanha costuma-se dizer que “os outros também só cozem com água”. Precisamos de constatar que temos deficiências mas também vantagens competitivas, temos é de as usar da melhor maneira.

Quais são essas vantagens?

Temos alunos muito bons, constato porque fui professor na Faculdade de Ciências do Porto durante 3 anos e agora estou na Faculdade de Engenharia como professor associado.

Concluí que os nossos 10 a 20 por cento de alunos muito bons são mesmo muito bons, quando os enviamos para fora dão-se bem e têm bons resultados. E acho que com a orientação e supervisão adequadas podem produzir resultados excelentes.

O programa também ataca aí, que é tentar dar todas as oportunidades de desabrochar: todos os alunos [de doutoramento] têm orientador em Portugal e orientador nos EUA, e passam três anos em Portugal e dois nos EUA e com isso fazem a ponte que queremos: são os nossos embaixadores lá fora e colocam o país nas tais redes.

Já há uma percepção na Europa e nos EUA de que Portugal está a investir fortemente na renovação das nossas universidades.

Acaba por haver concorrência com diferentes países. Em termos europeus, Portugal está a conseguir distinguir-se?

Em transferência de tecnologia ainda temos para fazer, não tenho dúvidas de que as publicações científicas atingiram um nível muito razoável, ainda não são uma excelência generalizada, mas existe sem dúvida uma comunidade crescente.

Mas não basta um numero de doutores muito elevado, é preciso ver como interagem, para contribuírem para um salto qualitativo e para um impacto na indústria e o futuro do pais depende disso: gerar conhecimento e aplicá-lo, ou não seremos capazes de acompanhar os esforços de investimento na Ásia e no Médio Oriente.

E na Europa também?

Mas aí já vem uma tradição de trás: se pensar nas universidades alemãs, britânicas ou francesas há toda uma história onde a investigação fundamental (física ou química, por exemplo) sempre teve um papel importante que não teve em Portugal.

Quais são as áreas de aposta em transferência tecnológica?

Uma das coisas que crise financeira revelou é que não podemos apostar tudo nos serviços, em especial serviços de gestão financeira, e descurar a parte de criação e produção e indústria. Temos de apostar nas duas coisas e temos de ter saber e conhecimento na área de comunicações ópticas (fibras e dispositivos de electrónica necessários para redes funcionarem) e rádio.

Para além da parte mais de hardware, que engloba sensores e circuitos, temos também a parte do software em que Portugal pode ter um papel importante porque não requer muitos custos de investimento.

Precisamos de pessoas muito qualificadas e de uma óptima gestão e liderança, e estou convencido de que as tecnologias de informação e comunicação nestas áreas particulares serão pontos fulcrais em que Portugal não pode perder a oportunidade de desenvolver as vantagens comparativas de que falava.

A concorrência que existe agora na fibra óptica e nos serviços de banda larga também pode contribuir para isso?

Exactamente. Portugal tem também um perfil curioso nessa matéria, somos vistos lá fora como early adopters (que gostam muito de experimentar novas tecnologias e produtos acabados de chegar ao mercado) e o país é suficientemente pequeno para se poderem fazer experiências de campo sem custos muito elevados. Esta é uma vantagem comparativa enorme que tem de ser explorada.

Um dos nossos projectos é precisamente nas redes veiculares, em que o nosso parceiro é a NDrive, em que há um plano para haver na cidade do Porto, já no próximo ano, uma rede de veículos a circular e a comunicarem entre si, capazes de disseminar informação acerca do estado das vias de trânsito, indicando ao condutor quais são os melhores caminhos com base nessa informação.

Este projecto vai investigar formas colaborativas de distribuir tráfego pelas redes de forma a poupar combustível e a haver uma utilização racional e pode ter apoio das comunicações móveis. A NDrive vai apoiar este projecto a três anos e vai haver já uma demonstração na conferência do Porto.

O que vê como a sua missão?

É arranjar espaço para que os encontros entre universidades e empresas aconteçam e se estabeleçam rotinas. Às vezes o primeiro encontro não é difícil, mas depois é preciso arranjar rotina uma vez por semana e as pessoas irem preparadas, fazerem o trabalho de casa.

Aí as co-orientações dos alunos em colaboração com orientadores de cá e da Carnegie Mellon e com as empresas são extremamente importantes. Têm o papel essencial de serem um motor, têm de ser eles próprios a marcar reuniões, a organizar e a coordenar. É dessa forma que se preparam líderes.

Um bom investigador é bom líder ou não?

São competências diferentes mas não mutuamente exclusivas, mas uma universidade que só tivesse pessoas muito carismáticas e com capacidades de liderança também seria pobre, porque precisa de investigadores que apostem na investigação de base, onde o tipo de trabalho é muito diferente e onde as escalas temporais também são muito diferentes, passam-se muitos anos num gabinete a pensar num problema.

Muitas ideias nas tecnologias de informação e comunicação vêm de matemáticos e físicos e teóricos. Por outro lado, precisamos de pessoas com forte capacidade de comunicação, aliadas a uma forte substância técnica.

Muitas empresas sentem precisamente falta de uma formação mais técnica.

Nesta parceria conseguiu-se um bom equilíbrio, porque a Carnegie Mellon é muito pragmática e muito orientada para as necessidades das empresas. Os mestrados profissionais são muito orientados para as necessidades das empresas, que continuam a pagar aos seus trabalhadores apesar de estes estarem a ter formação a tempo inteiro.

O que interessa haver é um bom cruzamento entre profundidade técnica e relevância prática. O que precisamos é de desenvolver sistemas de engenharia de base científica e para isso precisamos de profundidade técnica e é isso que podemos dar, como universidades.

As empresas têm muito menos tempo para estudar ou reconhecer as direcções para onde caminha a tecnologia, as universidades têm esse tempo e têm contactos com alguns dos melhores especialistas do mundo nessas áreas, e um acesso à informação muito imediato.

E qual é o papel das empresas?

Colaborar de forma muito activa, formar os seus quadros e garantir que uma parte dos jovens que estamos a formar são absorvidos pela indústria e que fazem a diferença e criam valor. Não basta o financiamento, que claro que é muito importante, mas para montar a cadeia de valor tem de ser possível a uma empresa disponibilizar algum tempo dos seus recursos humanos para estarem nas universidades e vice-versa, a conhecerem-se mutuamente. Quando as empresas já conhecem os alunos torna-se muito mais fácil encontrar emprego, por exemplo em empresas de alta tecnologia que apostam na inovação, que em Portugal também existem muitas.
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"O Plano de Estabilidade e Crescimento e as autoridades europeias fracassaram quando foram complacentes com o seu não-cumprimento. Não agora, mas durante o 'bom tempo' económico."
Vítor Bento, jornal "Público", 8-2-2010
 

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