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Todos os destaques do mundo dos negócios e da Bolsa.
 

 

 
Fé nos negócios
04.01.2008 - 12h51
Por Ana Rute Silva 
As religiões do mundo definiram há séculos formas de estar no mundo dos negócios, que perduram nos dias de hoje. A forma como o dinheiro e o lucro são vistos pelo catolicismo, islamismo, hinduísmo, budismo e judaísmo mostra que há mais pontos em comum do que diferenças [Suplemento Economia]

Nos almoços organizados pela Associação Cristã de Empresários e Gestores reza-se o Pai Nosso antes da refeição. Um gestor judeu reserva os Sábados para a oração na Sinagoga, nem que nesse dia esteja para ser assinado o seu maior negócio de sempre. Num restaurante muçulmano apresenta-se aos clientes carne de animais abatidos e sangrados no matadouro de acordo com rituais islâmicos. Um hindu prefere não ostentar dinheiro e fazer doações para potenciar bom karma. No Budismo ganhar dinheiro não é uma coisa má: o que conta é a intenção.



A religião está no meio de nós. Não só estrutura planos de negócio, como define normas e condutas a seguir. Séculos antes de existir qualquer abordagem filosófica à ética empresarial, as religiões já a definiam. E mesmo que todos os dias se fale em crise de fé, a verdade é que três em cada quatro pessoas diz ser religiosa. Como afirma Domenèc Melé, professor e director do departamento de Ética Empresarial da Escola de Negócios IESE, em Espanha, as crenças fornecem mapas de acções nos negócio e a “ética religiosa está mais viva, hoje, do que a moral filosófica das implicações do negócio para a comunidade”. Num mundo global, gerir a diversidade implica conhecer a abordagem ao negócio das várias religiões.







Judaísmo

A riqueza de Deus



A história de Alain Hayat, 63 anos, não é muito comum para um judeu. Foi o número dois da Renault Portuguesa entre 1988 e 1993 e viajou pelo mundo em funções de gestão na multinacional francesa - que incluíram abrir uma subsidiária do fabricante automóveis na Rússia. Depois do curso de economia e estatística feito em Paris, Alain, filho de uma família tradicional judia oriunda da Tunísia, entrou no mundo do trabalho como empregado.



“Tive uma vida muito cosmopolita, o que segue um pouco a perspectiva dos judeus. O primeiro passo que dava em cada novo país onde estava era contactar a comunidade judaica”, conta em Lisboa, onde vive com a esposa portuguesa desde que se reformou. A religião, diz, traz consigo alguns problemas práticos para o gestor que depende de uma hierarquia. “Os judeus não trabalham ao Sábado e a preparação começa um dia antes. A partir das 15 horas de sexta-feira tinha de sair. Explicar isso ao patrão é complicado...”, recorda, acrescentando que esta é uma das razões para que a maioria dos judeus se dediquem ao seu próprio negócio. Alain, que também é director da sinagoga Shaaré Tikva de Lisboa, sublinha que “qualquer religião traz consigo regras morais”.



Contudo, há questões de fé que ultrapassam a gestão empresarial. “A decisão de despedir pessoas é um problema humano e não religioso. Quando tive de o fazer, sempre procurei respeitar as pessoas”, aponta. Alain Hayat garante que há uma separação clara entre a gestão profissional e a religião ainda que, no judaísmo, a actividade profissional seja uma forma de ligação a Deus. “O judaísmo dá valor ao trabalho. Deus criou o Homem para terminar a sua obra. O mundo não está acabado. Fazer coisas positivas é uma forma de ser religioso e de demonstrar que se está a fazer o que Deus espera de nós”, explica.

Segundo o rabino Eliezer Shai di Martino, a visão judaica da economia assenta em três pilares: capitalismo (a Torah reconhece os direitos de propriedade e da acumulação de riqueza – vista como uma bênção); fé (a riqueza e o bem-estar não são apenas produto da astúcia, são uma benção de Deus. Por outro lado, a riqueza não é propriedade do ser humano - é um depósito de Deus para que as pessoas se possam dedicar mais à vida espiritual); e actos de caridade (o bem-estar dos cidadãos é gerido pelas comunidades).



“Há alguns pontos de contradição com o capitalismo puro, nomeadamente na proibição de cobrar juros elevados. O dinheiro que temos é um depósito de Deus e ao emprestá-lo não podemos ser demasiado gananciosos”, diz.

Ter salário em dia é um imperativo no judaísmo. “Quando uma pessoa tem um empregado não pode atrasar o pagamento. É uma questão de planificação”, justifica Alain. Eliezer Shai di Martino acrescenta: “É uma proibição bíblica atrasar salários”.

O antigo gestor da Renault, que fez carreira desde o “marketing” até altos cargos de gestão, acredita que a separação entre gestão e religião não pode ser conflituosa. “Não poder trabalhar ao Sábado é um problema 100 por cento pessoal, uma opção que me levava a fazer um planeamento. Um empresário terá de enfrentar o facto de parar o negócio”, garante.









Catolicismo

O destino universal dos bens





No catolicismo – a vertente do cristianismo com maior número de crentes – o lucro é subordinado à ética. A Doutrina Social da Igreja refere que “a actividade económica, segundo os seus métodos e as suas leis próprias, deve exercer-se dentro dos limites da ordem moral, a fim de corresponder aos desígnios de Deus a respeito da humanidade”.



A actividade económica, refere Nuno Fernandes Thomaz, administrador não executivo da Nutrinveste, do grupo Jorge de Mello, “é um meio para servir a humanidade”. Dirigente da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), vice-presidente do Conselho Directivo do Fórum para a Competitividade e militante do CDS/PP, Nuno Thomaz é católico desde que se lembra. “Foram sementes deixadas desde o início”, diz. Os valores que defende enquanto gestor misturam-se com a religião que professa, mas na hora de tomar decisões difíceis assume que tem “dilemas permanentes”. A teoria e a prática enfrentam-se, entre a sustentabilidade a longo prazo de um negócio – que implica por vezes despedimentos – e a defesa do bem comum e a ajuda ao próximo. “Quando tive de despedir cerca de 100 a 200 pessoas enfrentei dilemas dolorosos. Mas a empresa onde estava, na altura, em meados dos anos 90, é hoje viável”, explica.



Nuno Thomaz prefere pôr a tónica na responsabilidade social, tema que tem dominado debates na ACEGE. A criação de valor de uma empresa passa pelo seu papel social, económico e ambiental, numa óptica de sustentabilidade a longo prazo. “Aos valores ‘pessoas, lucro e planeta’ junta-se um quarto: o da dimensão espiritual”, sublinha. Iniciativas como o lançamento do Código de Ética dos Empresários e Gestores reforçam esse novo olhar. Até porque em momentos de conflito de valores “são essenciais critérios claros que ajudem a decidir de acordo com os princípios de uma recta consciência, baseados na Doutrina Social da Igreja”, lê-se no preâmbulo do documento, lançado pela ACEGE.



Peter Stilwell, director da faculdade de Teologia da Universidade Católica, explica que no catolicismo “há o princípio do destino universal dos bens”: toda a Humanidade tem direito ao usufruto dos bens. O lucro foi encarado, durante muito tempo, como algo negativo. O mesmo se passava com a riqueza proveniente dos jogos dos mercados financeiros. “O Papa João Paulo II introduziu a noção de lucro justo. Pode ser um critério de eficiência da empresa e, justamente investido, aproveitado para o lucro comum, respondendo às necessidades da sociedade”, explica Peter Stilwell. Para os católicos o capital não é mais do que a acumulação do trabalho. Mas o dinheiro não é para ser esbanjado.





Islamismo

A importância do negócio lícito



Ismail Karolia pede uns minutos para poder cumprir mais uma oração do dia. No Mk Halal, restaurante de “fast food” com comida do oriente em Odivelas, jovens entram e saem com tabuleiros cheios de hambúrgueres de frango ou kebabs. Ismail, com apenas 23 anos, pensou o conceito ao pormenor, seguindo todos os preceitos da religião islâmica. No menu não há carne de porco nem álcool. Aliás, a carne utilizada para confeccionar os alimentos é “halal” ou seja, o abate dos animais segue as práticas islâmicas, com presença humana e técnicas de corte que, diz o jovem empresário, “eliminam 95 por cento das hipóteses de contaminação de doenças”.



“Este é um conceito étnico e a empresa tem cariz familiar – o meu pai é sócio honorário”, explica Ismail, depois de ter cumprido o ritual de mais uma oração. No restaurante de Odivelas e no do centro comercial Rio Sul, no Seixal, há um pequeno espaço onde os proprietários podem rezar. Os clientes são de todas as religiões, mas o conceito “halal” é “para um mercado muito específico”. No negócio que criou, tudo é lícito para consumo. Não teria sentido de outra forma.

“A minha religião está ligada ao meu negócio, que nasceu em 2003. Tento não marcar reuniões nas horas de oração, por exemplo. Os produtos que comercializo são todos permitidos. E o zakat (contribuição de 2,5 por cento dos lucros para os mais pobres) é um compromisso normal”, conta.



A segunda maior religião do mundo encoraja as práticas empresariais e o comércio. A prosperidade é desejável, mas não é um objectivo em si mesmo. O Xeque David Munir, Imã da Mesquita de Lisboa, explica que é proibido “ter uma riqueza que provenha da exploração de pessoas”. A caridade aumenta a riqueza e, por isso, o zakat serve para “purificar” o dinheiro obtido. Vender álcool é proibido, daí que os empresários da hotelaria entreguem a exploração do bar a não muçulmanos. Ismail Karolia prefere não ter esse problema para resolver e aboliu a venda de álcool nos restaurantes, mesmo que com isso obtivesse mais lucro. Os dez novos restaurantes que pretende abrir em Portugal seguirão as mesmas regras. “A minha opção em ter carne ‘halal’, por exemplo, encarece o preço da matéria-prima em 40 por cento, mas eu consigo praticar ao público os mesmos preços da concorrência”, garante, revelando que cada unidade tem uma facturação anual de 180 mil euros. Os novos restaurantes serão abertos através de “franchising” e depois do território nacional o empresário espera entrar em Espanha, onde há 1,5 milhões de muçulmanos.



O cumprimento das promessas e dos contratos, bem como a honestidade são valores cruciais. A usura não é permitida e os juros cobrados num empréstimo à habitação, por exemplo, são encarados como “inflação”. O recurso excessivo ao crédito é desincentivado. A palavra de ordem é o equilíbrio.

Para um muçulmano, a relação com os empregados também tem regras específicas. Para além de ser banida qualquer tipo de exploração, o cumprir o pagamento de salários é fundamental. “O Alcorão diz: Pague ao seu funcionário antes de secar o suor”, cita David Munir. No Mk Halal – que entre funções de logística, administrativas ou nas lojas já emprega 20 pessoas – 90 por cento dos trabalhadores não são muçulmanos. Mas nem por isso deixam de beneficiar das regras do Islão.

“Para mim é normal gerir desta forma. O meu balanço anual, por exemplo, é sempre feito no mês do Ramadão”, diz Ismail.





Hinduísmo

Doar para purificar



Kirit Bachu está sentado de pernas cruzadas em cima de um tapete de esponja, forrado a tecido bordeaux. Juntou-se ao grupo de homens e mulheres que assistem, numa sexta-feira fria, à cerimónia religiosa no templo da Comunidade Hindu de Portugal.

“Numa actividade comercial nunca se deve enganar uma pessoa. O lucro tem de ser justo, não exagerado. E quando se atinge um certo patamar, devemos tirar uma parte para caridade. Assim estamos a purificar os proveitos que tivemos”, diz, mais tarde, ao PÚBLICO.



O empresário de 55 anos, dono da Interbrinca, importadora de brinquedos da Rua da Madalena, em Lisboa, chegou a Portugal em 1980. Os avós e os pais eram comerciantes em Moçambique e desde que nasceu Kirit estava quase predestinado a seguir-lhes os passos, cumprindo a tradição hindu. Hoje tem 12 empregados que fazem parte da mesma equipa.

Ashok Hansraj, porta-voz da Comunidade Hindu de Portugal, explica que no Hinduísmo as relações hierárquicas não se limitam a uma posição de superioridade.

“Um empresário tem de criar um ambiente ameno e agradável na empresa para que haja produtividade. Este é um princípio antigo”, refere. Os princípios da religião que Kirit professa intervêm na actividade comercial, que faz parte da sua tradição familiar há quatro gerações. “É claro que as decisões são económicas, baseadas no negócio, mas há aspectos que são característicos da minha religião. Os hindus por norma não gostam de exibir a riqueza”, ilustra. O desapego ao materialismo está muito presente nesta religião. Ashok Hansraj explica que os bens são necessários, mas lembra: “Viemos ao mundo de mãos vazias e vamos regressar de mãos vazias. Deixamos a obra”. A riqueza indevida, obtida através de meios ilícitos, é um vírus. Nem que apenas uma pequena percentagem de uma grande fortuna seja proveniente de “dinheiro sujo” todo o negócio é afectado. As acções filantrópicas dão, por isso, bom karma.



No templo, mulheres e homens sentam-se em locais diferentes, virados para o altar onde os deuses hindus são homenageados.

À medida que os cânticos enchem o espaço, dominado pelos tons bordeaux e dourado, entram mais hindus, jovens e adultos descalços. Kirit Bachu prefere não revelar dados financeiros da Interbrinca (os números não são tão bons como eram há alguns anos) e vai dizendo que os hábitos mudaram. A educação a que hoje os filhos têm acesso faz desviar o destino certo no ramo comercial para outros voos, até porque no Hinduísmo não há imposições, nem carreiras profissionais proibidas. “Já têm outra ambição, querem formar-se. A profissão já não passa de geração em geração”, diz, com ar conformado.





Budismo

O desapego aos bens materiais



Ganhar dinheiro. Era este o maior objectivo profissional de Carlos Quintas, fundador da Sociedade de Software Financeiro e, mais tarde da Altitude Software, quando terminou o curso de engenharia electrotécnica de sistemas digitais no Técnico, em 1982. Mas a visita de Dalai Lama a Portugal em 2001 mudou tudo. Dono de uma empresa que facturava 20 milhões de euros e que, no seu pico de actividade, chegou a ter 400 funcionários, Carlos Quintas, hoje com 48 anos, decidiu deixar literalmente tudo para trás e aprofundar a prática do Budismo. Vendeu os dez por cento de capital que detinha na Altitude Software e partiu para o Sul de França para um retiro de quatro anos.



“Foi um choque total e absoluto para a família e amigos. Mas para treinar a mente e desenvolver o amor, a compaixão e o espírito altruísta teria de me isolar. Não é fácil explicar isto aos outros”, conta. De regresso a Lisboa, o empresário não traçou planos para o futuro. Quer aplicar o que aprendeu. “É provável que surjam oportunidades, nomeadamente na área das novas tecnologias, mas hoje tento não me apegar às coisas. Ganhar dinheiro não traz felicidade”, explica. A visão mudou. Carlos Quintas percebeu que se quer aplicar a filosofia budista aos negócios tem de ter como intenção gerar felicidade aos outros e a si próprio. “No mundo dos negócios há sempre a tendência para dar prioridade ao lucro, mesmo não sendo muito ético. Mas ter essa atitude é, no fundo, uma estupidez porque terei sempre consequências”, continua.



No Budismo todas as acções têm consequências (positivas ou negativas). Paulo Borges, presidente da União Budista Portuguesa, explica que “a gestão fundamental não é a da riqueza material, mas de processos mentais e emocionais”. As condições materiais não influenciam a felicidade e o treino, através da meditação, pode diminuir a importância do materialismo. No livro “Realização e serenidade na vida profissional”, Dalai Lama refere que não há nada de errado em ganhar dinheiro.



O problema é quando a “motivação para ganhar dinheiro se torna um fim em si mesmo”. Um empresário ou gestor budista deve ter um meio de vida que não prejudique directa ou indirectamente outro ser vivo e deve contribuir para o bem comum. Ser dono de um império económico é, aliás, resultado de práticas antigas de generosidade. O essencial e não ter apego à riqueza.

“Utilizar a motivação correcta é a melhor maneira de florescer o negócio. Se eu for altruísta e generoso vou beneficiar muito mais. É assim que funciona a mecânica do mundo”, resume Carlos Quintas.

[Suplemento Economia]



CAIXA



Breve Raio X



Judaísmo



População

Cerca de mil em Portugal (15 milhões no mundo)



Relação com a riqueza

Para os judeus, o bem-estar e a riqueza não são apenas produto do sucesso de um negócio. É uma bênção de Deus, uma espécie de depósito colocado nas mãos das pessoas para que possam dedicar-se à vida espiritual judaica. É admissível tirar proveito da riqueza. As necessidades económicas ou desejos são encarados como qualquer outra tendência humana.



Actividades profissionais desaconselhadas

A usura não é permitida. É valorizado o trabalho manual. O Talmude, código magno da lei judaica, refere que “uma pessoa que ganha um sustento honesto através de um trabalho manual tem mais valor do que uma pessoa que teme os céus”.





Catolicismo



População

7,3 milhões em Portugal (970 milhões no mundo)



Relação com a riqueza

O capitalismo é aceitável se for entendido como um sistema económico que reconheça o papel positivo e fundamental das empresas. É defendido o direito à propriedade privada e os lucros são entendidos como reguladores da vida empresarial, a par de factores humanos e morais.



Actividades profissionais desaconselhadas

Todas as que não respeitem a dignidade humana. As actividades profissionais devem contribuir para a sociedade.



Islamismo



População

35 mil em Portugal (mil milhões no mundo)



Relação com a riqueza

A prosperidade é desejável mas não deve ser o fim único. Os muçulmanos devem fornecer serviços úteis à comunidade. É reconhecido o direito de propriedade e Alá é aquele que sustenta. O Islão não permite a riqueza ilícita. Uma percentagem anual dos lucros deve ser dada aos pobres.



Actividades profissionais desaconselhadas

Qualquer actividade deve ser gerida de acordo com as leis da natureza decididas por Deus. Não se deve ter uma profissão que explore as pessoas, nem enganar o cliente no preço ou na qualidade do produto. É proibido vender e consumir álcool e carne de porco.





Hinduísmo



População

15 mil em Portugal (780 milhões no mundo)



Relação com a riqueza

Os bens são necessários mas o que é supérfluo ou excessivo implica perda de identidade. A riqueza não é um objectivo supremo. A ética é mais importante. O sistema de castas hierarquiza a sociedade de acordo com classes profissionais (por ordem de importância): Brahmans (sacerdotes), Kshatriyas (realeza e soldados), Vaisyas (empresários, agricultores) e Harijans (“os intocáveis”).



Actividades profissionais desaconselhadas

As que prejudiquem seres humanos e animais





Budismo



População

10 mil em Portugal (325 milhões no mundo)



Relação com a riqueza

Produzir riqueza não é uma questão central, mas não se considera a acumulação de dinheiro negativa. Não são as condições materiais que influenciam a felicidade, por isso o dono de um império de milhões pode ser budista se não se apegar à riqueza que produz



Actividades profissionais desaconselhadas

Um budista deve ter um meio de vida que não prejudique directa ou indirectamente seres vivos. Deve poder contribuir para o bem comum. Ser talhante, caçador, trabalhar no sector químico, farmacêutico ou no armamento é desaconselhado





Principal fonte consultada: Religious Foundations of Business Ethics, de Domènec Melé in “The Accontable Corporation”, Marc J. Epstein e Kirk O.Hanson



CAIXA 2

O novo papel da ética na gestão das empresas



Cursos, códigos e regras de comportamento estão, hoje, por todo o lado. Tal como a religião não é irrelevante para a sociedade, também não o é para as empresas





A nova tendência de preocupação ética entrou nas empresas à custa de escândalos financeiros, polémicas e processos de fraude. Gestores atrás das grades, empresas que prejudicam o ambiente, produtos que provocam doenças... Uma lista interminável de consequências da actividade de um negócio que foi mal conduzido chamaram para dentro dos corredores dos escritórios preocupações que vão além do lucro. Fazer dinheiro, aliás, passou também a depender de imperativos éticos: se uma empresa utiliza mão-de-obra infantil é penalizada pelos consumidores, condenada na praça pública.



Em entrevista por e-mail ao PÚBLICO, Domenèc Melé, director do departamento de Ética Empresarial da Escola de Negócios IESE e autor do artigo “Religious Foundations of Business Ethics”, lembra que há alguns anos ninguém falava de ética empresarial. “Alguns viam mesmo este conceito como algo de contraditório ou sem lugar na racionalidade empresarial. A ética resumia-se a valores subjectivos e respeitáveis mas externos à empresa”, começa por explicar. Algo mudou. A maioria das empresas reconhece que a ética faz parte da actividade, introduziram códigos, declarações de valores e programas de formação. “A ética é uma preocupação formal mais intensa nos dias de hoje. Ou seja, a profusão de códigos e cursos traduz uma maior preocupação com a gestão da ética e da reputação”, aponta por seu lado Miguel Pina e Cunha, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.



Mais do que códigos

Mas há ainda muito por fazer. “Não se trata apenas de códigos e normas. Estamos a falar de comportamento, carácter e virtudes pessoais. A qualidade ética das pessoas é a chave e muitas empresas já perceberam que na selecção dos seus recursos humanos são cada vez mais ponderados valores como a integridade e o sentido de responsabilidade social e ecológica”, lembra Méle.

Fernando Neves de Almeida, que lidera a Boyden em Portugal (empresa de selecção e recrutamento de cargos de topo), já tentou reunir directores de recursos humanos com líderes religiosos para discutir a espiritualidade e a felicidade no local de trabalho. “Não houve inscrições suficientes para encher a sala. A ideia era perceber como cada religião encarava a felicidade”, conta. Mesmo admitindo que as preocupações éticas dominam a gestão actual, o consultor acredita que num mercado concorrencial não se consegue pôr os princípios e a moral acima do lucro. “Os gestores são avaliados pelos resultados e se estiver mais virado para a espiritualidade terá mais conflitos interiores”, alerta. Apesar do cepticismo, diz que “a religião tem um papel mais importante do que se pensa na organização económica”.



As religiões do mundo deram, há séculos, o primeiro passo para a criação de uma ética nos negócios e o seu papel na organização das empresas é indiscutível. Miguel Pina e Cunha sublinha que a religião, tal como não é irrelevante para as sociedades humanas, também não o é para as empresas. “O famoso clássico de Max Weber sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo mostra como a religião ajuda a criar visões do mundo/paradigmas que se repercutem no funcionamento na sociedade, incluindo as empresas”, aponta. Ignorar esta realidade só pode trazer desvantagens.





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"O Plano de Estabilidade e Crescimento e as autoridades europeias fracassaram quando foram complacentes com o seu não-cumprimento. Não agora, mas durante o 'bom tempo' económico."
Vítor Bento, jornal "Público", 8-2-2010
 

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