Os brinquedos de Natal vêm de Guangdong
14.12.2007 - 09h03
Por Raquel de Almeida Correia
Barbie e Batman foram os grandes vilões deste ano. Estes brinquedos da Mattel, líder mundial do sector, constavam da lista a retirar do mercado, em nome da segurança dos mais pequenos.
A operação atingiu 21 milhões de produtos, todos fabricados em solo chinês, onde a empresa concentra 65 por cento da sua produção. O Natal, que, em 2006, gerou 2,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,5 mil milhões de euros), mais de terço do volume de vendas total do grupo, será um teste à sua imagem. Enquanto vai recuperando da descida de um por cento nos lucros para os 236,8 milhões de dólares, nos primeiros nove meses deste ano, a Mattel estuda alternativas ao "made in China".
Sara Marçal, directora de marketing da delegação portuguesa, justifica este abandono com o aumento dos custos de produzir na China. "Europa e Estados Unidos estão fora de questão", frisa. Esta é, para já, a decisão tomada no que toca à deslocalização do fabrico de brinquedos Mattel. A gestora de 36 anos chegou à empresa em 2001, numa altura em que "as Barbies só usavam roupa cor-de-rosa". Bastaram seis anos para que assistisse à maior retirada de produtos alguma vez vista no mercado dos brinquedos. O caso do fabricante norte-americano não foi, no entanto, o único, em 2007.
A Sony, por exemplo, foi obrigada a recolher 58 mil comboios nos Estados Unidos, em Setembro. Tal como a Mattel, o problema do gigante da electrónica teve origem na China e ficou a dever-se a excesso de níveis de chumbo nos brinquedos. A Hasbro passou pelo mesmo em Julho. Desta vez, esteve em causa um forno em miniatura, também de fabrico chinês, susceptível de causar lesões físicas às crianças. A portuguesa Concentra também não escapou a esta vaga. Em Novembro, a Comissão Europeia deu nota negativa a mil dos seus produtos. Grande parte da oferta da empresa provém, igualmente, do país que se consagrou como a maior fábrica do mundo.
Da China para o mundo
Poupar nos custos. Este tem sido o grande argumento do mercado chinês para angariar a produção dos maiores fabricantes mundiais. Os brinquedos não escapam à tendência. Mattel e Hasbro, os líderes desta indústria, começaram a fazer as malas há mais de uma década. Um passo com implicações na balança comercial global. Em 2006, o país exportou mais de 22 mil milhões destes produtos, representando 60 por cento do total no mundo. Nos Estados Unidos, o valor subiu para os 87 por cento.
Portugal não é excepção. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), perto de dez por cento dos brinquedos importados para território nacional, equivalentes a mais de 32 milhões de unidades, provêm directamente de fábricas chinesas. A este volume acresce ainda os produtos que fazem paragem em países como Espanha, mais especificamente, no porto de Valência, e que contam como oriundos do país vizinho. O fabrico espanhol representa 43 por cento da importação, mas inclui muita produção na China, onde se destaca a província de Guangdong (que fabrica cerca de metade da produção mundial).
Só depois de entrarem na fronteira espanhola é que os brinquedos chegam a Portugal, por terra ou por mar. O percurso demora, no mínimo, mês e meio, mas pode chegar a demorar três meses (veja infografia). Um intervalo de tempo que obriga as empresas a planear os lançamentos com antecedência e, muitas vezes, sem saber qual será a sua aceitação no mercado de entrada. "Joga-se muito com a sorte", diz Sara Marçal. Apesar do recurso a painéis de consumidores para testar as novidades, o negócio nunca é certo.
Na China, os fabricantes jogam com unidades de produção próprias, mas a maioria dos produtos sai de linhas de montagem subcontratadas, sobre as quais é mais difícil ter controlo - um imperativo quando se trabalha com crianças. Só este ano, o Governo chinês revogou as licenças de exportação de 764 fábricas de brinquedos e exigiu que as restantes 690 melhorassem as instalações e a qualidade do fabrico.
Controlo (pouco) apertado
Indonésia, Malásia e México são os outros destinos escolhidos pelos operadores do sector. Mas, na maioria dos casos, por sua própria conta e risco. Só na China não conseguem dar uma resposta completa ao volume produtivo instalado. Um facto que tem obrigado a mudanças nas estratégias das empresas. A Mattel já reduziu bastante a lista de fabricantes chineses e a Hasbro tem uma equipa deslocada no país a trabalhar, em exclusivo, "no controlo da actividade de terceiros", assegura Rui Botelho de Sousa, director de marketing da multinacional em território português.
O gestor da marca norte-americana, que tem 80 por cento da produção localizada em território chinês, explica que este reforço pretende "evitar que a empresa se envolva em situações menos agradáveis", referindo-se à recolha em massa de brinquedos que marcou 2007. "Não gostaria que o que se passou com os nossos concorrentes acontecesse com a Hasbro", acrescenta. O rígido código de qualidade seguido pela empresa a nível mundial dá "uma rede de segurança fundamental", mas nem sempre se consegue controlar tudo, sobretudo quando o maior risco não está dentro de casa.
Das reclamações de consumidores que chegam à Comissão Europeia, 48 por cento incide sobre produtos fabricados na China. E, de todas as categorias, os brinquedos são os que mais pesam (24 por cento). Bruxelas tem vindo a mostrar especial preocupação com o tema, com o fabrico chinês como protagonista. Em 2006, foram assinados dois acordos de cooperação com o Governo do país para garantir a qualidade e devida inspecção destes produtos: o Memorando de Entendimento, em Janeiro, e o Guia de acção da Cooperação para o Reforço da Segurança dos Brinquedos, em Setembro.
Este ano, as visitas da Comissária Europeia para a Protecção dos Consumidores, Meglena Kuneva, aos maiores exportadores para solo europeu começaram, precisamente, pela China, no final de Julho. A escolha pretendeu "enviar um sinal forte da importância de construir uma parceria com o país em termos de segurança dos produtos", explicou a Comissão Europeia.
Agora ou nunca
Com a aproximação do Natal, as vozes de protesto ganham mais força, não fosse esta a altura do ano em que mais brinquedos se compram. Entre 60 e 65 por cento do volume de negócios das empresas que operam em Portugal é gerado na época natalícia, colocando uma forte pressão sobre o mercado no que toca à segurança. O mercado nacional vale cerca de 100 milhões de euros e, apesar de as marcas tentarem, há muito, combater a sazonalidade, o momento decisivo chega agora.
Em Dezembro de 2006, a Mattel liderava, com 15,2 por cento de quota de mercado. Seguia-se a Concentra (8,9 por cento), a Hasbro (8,5 por cento) e a espanhola Famosa (6,4 por cento). A portuguesa Majora aparecia em sétimo lugar, com 3,3 por cento. As oscilações são, porém, frequentes. E dependem, em larga escala, da pontaria das marcas para acertar nos produtos mais bem-sucedidos no Natal.
As figuras de acção e as bonecas são, por tradição, as categorias mais valiosas, mas englobam uma multiplicidade de opções, impulsionadas pelas rápidas inovações tecnológicas, que deixam uma margem demasiado grande entre a certeza e a possibilidade de fazer um bom negócio com os lançamentos de Natal. O único dado certo é que Janeiro será o mês mais fraco de todo o ano.
Para os fabricantes afectados pelas retiradas de produtos potencialmente perigosos, o balanço das vendas no pico mais forte do ano ditará até que ponto foram afectados pela percepção criada pelos consumidores. A directora de marketing da Mattel está, no entanto, tranquila. "Em Portugal não sentimos impacto. Não notámos uma diminuição nas compras, tantos por parte dos clientes, como por parte do consumidor final. E, por isso, não me parece haver influência negativa do que aconteceu", acredita.
Desafios sérios
O risco de produzir na China e a sazonalidade não são os únicos desafios que a indústria de brinquedos tem pela frente. As exigências de tecnologia, visíveis na perda de quota de mercado dos jogos mais tradicionais para os formatos digitais, e o aumento de preço do petróleo, a matéria-prima na base do plástico, dão sinais de que este sector não está para brincadeiras. Cerca de 70 por cento dos produtos são feitos à base de plástico, representando perto de 40 por cento do custo final dos brinquedos. Da mesma forma, e a juntar à subida do preço dos transportes, quase todos os donos das cerca de oito mil fábricas de brinquedos localizadas na China são pagos em dólares, e esta moeda desvalorizou ligeiramente. No entanto, os impactos só deverão ser sentidos em 2008, ano em que os consumidores deverão pagar mais e as empresas descerão os seus resultados.
Em Portugal, o mercado tem vindo a crescer a um ritmo de dez a quinze por cento ao ano, graças ao emagrecimento das margens de lucro das empresas. Os retalhistas começam a importar directamente das fábricas, o que impede que os grandes fabricantes e fornecedores tenham lucro como intermediários. E proibição de uso de flatatos, uma substância considerada tóxica pelos reguladores, e a limitação de uso de chumbo, metais pesados e ímanes, tem forçado a procura de materiais alternativos e mais caros.
As maiores empresas têm tido capacidade para fazer frente à evolução. Mas nem sempre é fácil sair vencedor deste jogo. A China foi (e ainda é) a opção de ouro numa altura de retenção de custos. E não há ninguém na indústria que considere essa tendência como um atentado à qualidade.
"Um brinquedo fabricado na China não significa que possa ser mais perigoso do que outro fabricado noutra parte do mundo, desde que siga todas as regras de segurança", diz fonte oficial da Concentra. A Mattel frisa que os produtos retirados "poderiam até nem ser "made in China"". E a Hasbro não questiona a capacidade do país para continuar a dar fôlego à indústria. O veredicto final cabe aos consumidores, mais propensos a comprar mais e mais caro na época do Natal. E não haverá, certamente, fabricante do mundo que não esteja ansioso por saber como se vão mover as peças na época mais proveitosa do ano para uma indústria que representa um mercado de cerca de 50 mil milhões de dólares a nível mundial [Suplemento de Economia, veja história completa na edição impressa].
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