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60 mil
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Todos os destaques do mundo dos negócios e da Bolsa.
 

 

 
Nunes Correia ao Diga Lá Excelência do PÚBLICO e RR
Francisco Nunes Correia: “As barragens são uma resposta à alteração climática”
02.12.2007 - 09h29
Por Ricardo Garcia 
Pedro Cunha/PÚBLICO
O ministro garante que anda muito de transportes públicos
Amanhã começa uma conferência das Nações Unidas, em Bali, que vai tentar traçar um roteiro para as negociações de um novo acordo para as alterações climáticas. O ministro português do Ambiente, Francisco Nunes Correia, vai ser o rosto da União Europeia na reunião.

Internamente, Nunes Correia está confiante nas medidas que o Governo determinou para limitar as emissões nacionais de gases que alteram o clima. Se não derem o resultado esperado, o Estado vai utilizar o Fundo Português de Carbono para comprar direitos de poluição lá fora. Para o futuro, Nunes Correia diz que construir mais barragens é uma aposta certa.

Tem afirmado que Portugal vai cumprir o Protocolo de Quioto. O que o faz estar tão confiante?

Eu tenho afirmado, e continuo a afirmar, que Portugal vai cumprir o Protocolo de Quioto. Tenho dito também, porque não vale a pena ignorá-lo, que esse cumprimento vai ser em parte conseguido à custa das chamadas medidas de flexibilidade de Quioto. O Fundo Português de Carbono vem trazer meios para permitir suprir aquilo que por outra via não pode ser conseguido.

Isto é como querer reduzir o défice com medidas extraordinárias...

Essa sua afirmação seria pertinente se não estivéssemos a fazer um enorme esforço para reduzir as nossas emissões [de gases com efeito de estufa]. E aí está o PNAC [Programa Nacional para as Alterações Climáticas] e aí está o pós-2012 [data em que findam os compromissos de Quioto].

Mas o que o faz estar tão seguro de que o PNAC vai ser cumprido na íntegra?

Na hora da verdade, cada ministério tem de falar por si. O PNAC é um programa do Governo, não do meu ministério. Todo esse processo é conduzido por uma comissão interministerial, há um compromisso de todos. O PNAC está estruturado em torno de 41 medidas. Cada uma tem de ter o seu plano de execução. Vai haver uma monitorização publicada na Internet do seu grau de cumprimento. Há uma visibilidade pública que a todos compromete e a todos obriga a ter um sentido de responsabilidade face a isso. Se Portugal não conseguir reduzir as emissões tanto quanto o desejável, vai conseguir [fazê-lo] noutras partes do mundo. Mas atenção às medidas do pós-Quioto. O plano nacional de barragens de elevado potencial hidroeléctrico tem por objectivo dar um contributo para o pós-Quioto.

Demorámos 40 anos a fazer uma grande barragem, Alqueva. Está muito confiante em relação às barragens novas...

Há uma diferença que é importante. Quem vai fazer essas barragens não é o Estado. Vão ser investidores privados. E estamos a falar de qualquer coisa que pode chegar aos dois mil milhões de euros de investimento privado. O investimento privado não quer levar 40 anos. Essas barragens podem ser feitas em dois, três, quatro, cinco anos.

No futuro, Portugal vai ser possivelmente mais afectado por secas. Não é um contra-senso estar a apostar em barragens, que precisam de água?

Pelo contrário. A percepção global, por parte dos especialistas na matéria, é a de que [haverá] um regime de maior incerteza climática, onde pode haver mais secas, e mais frequentes, mas intercaladas por períodos de grande pluviosidade. O que aumenta é aquilo a que se chama torrencialidade. Criar reservas de armazenamento de água é a primeira resposta a isso. É claro que havendo mais secas, mais temperatura, há mais evapotranspiração, também há maiores perdas.

E há menos produção de electricidade...

Mas a questão essencial não é essa. É o extremar do clima. Há mais secas e há mais cheias. As barragens são justamente a resposta à irregularidade do clima. As barragens são uma resposta à alteração climática.

O seu ministério é um pouco o polícia das alterações climáticas. O que é que pode fazer?

O “polícia” é uma palavra antipática. Eu acho que é o chefe da orquestra. E depois temos vários naipes de instrumentos de músicos que têm de tocar para orquestra.

Há alguns naipes que não estão a trabalhar tão bem. Na área dos transportes, está satisfeito?

A nível dos transportes, em Portugal como em toda a Europa, há muito que fazer. Mas há muito que está a ser feito. Quando se está a apostar em sistemas de transportes públicos, quando se constrói o metro no Porto, quando está em desenvolvimento o metro de Coimbra, quando se está a fazer o metro de Almada.

O metro de Almada está vazio. Se calhar não é o melhor transporte colectivo.

O meu colega dos transportes responderá melhor sobre questões desse género. Mas quando os portugueses são entrevistados a propósito do transporte colectivo, prova-se que têm imensos preconceitos. E quando lhes é dado experimentar, ficam fascinados, porque afinal é muito melhor do que esperavam. Dou-lhe outra medida muito importante, a fiscalidade automóvel, onde 60 por cento se baseia nas emissões de CO2. Somos o país que levou mais longe a questão ambiental ao imposto automóvel.

Como é que a União Europeia vai convencer os norte-americanos a entrar no jogo pós-Quioto?

Os norte-americanos ainda hoje são um razoável enigma no que diz respeito a Bali. A verdade é que durante muitos anos não quiseram falar de Quioto, nem sequer de alterações climáticas. [Agora] há efectivamente uma mudança. Os Estados Unidos foram obrigados a reconhecer, até por imenso isolamento internacional, e também pela política interna, que há um problema, que têm de dar respostas, têm de alguma maneira de participar neste processo. Até que ponto querem ir, ainda é um mistério.

O que faz pessoalmente como contribuição para controlar o aquecimento global?

É sempre uma boa pergunta para se fazer a um político. Aprendi com meu velho chefe, há muitos anos atrás, no departamento de hidráulica no LNEC, a ter um hábito que é apagar sempre as luzes por onde passo. É um pequeno gesto do dia-a-dia a que o cidadão não dá importância. Se dez milhões de portugueses fizerem isso, dá-se um passo em frente muito grande.

Anda de transportes públicos?

Ando bastante de transportes públicos. Nesta vida pública, isso é mais difícil, por razões evidentes. Mas na minha vida pessoal e privada ando muito de transportes públicos. Neste momento estou a avaliar a possibilidade de colocar painéis solares em casa.

Podia ter um carro híbrido...

Neste momento não tenho carro, só ando com o carro oficial. Mas é uma hipótese que considero.

Está cansado de ser ministro do Ambiente?

Não, de maneira nenhuma. Quem está cansado não pode estar nestas funções. A única maneira de as exercer é com entusiasmo e com gosto. Senão, não se suporta um dia-a-dia extraordinariamente pressionante, preenchido, esgotante.

Tem-se ouvido cada vez mais o seu nome na lista de uma eventual remodelação. Revê-se nisso?

Há 16 ministros e os 16 são remodeláveis. E a remodelação de qualquer um dos 16 ministros não é propriamente a condenação ao inferno. Nem sequer é um atestado de menos mérito.

Os PDM “não são sagrados”

Estes dois anos e meio foram marcados pela polémica em relação aos projectos de potencial interesse nacional (PIN). O seu ministério tem recorrido à figura do interesse público para aprovar projectos que não deveriam ser aprovados, por restrições ambientais...

Não há um único projecto aprovado no quadro dos PIN que não devesse ser aprovado. A diferença é que na administração pública, pela via tradicional, provavelmente levariam dez anos a ser apreciados, e agora porventura levam dez meses.

Um projecto como o Ikea, que o plano director municipal não previa que fosse construído naquela zona, foi aprovado...

Sim, há o caso do Ikea e há outros. Mas é preciso ter uma visão dinâmica dos planos directores municipais. Há razões supervenientes que determinam a eventual revisão dos planos directores municipais. Estes textos não são sagrados. E isto não se faz do pé para a mão. Faz-se com razões fundamentadas, por órgãos de poder próprio legitimados para o fazer. Cria-se aquela imagem de que, tendo o carimbo PIN, a passadeira vermelha está estendida e tudo é possível. De 140 projectos [PIN] analisados, 43 foram arquivados.

É curiosa a sua definição de planos dinâmicos. Numa quinta-feira, pode estar a aprovar um plano de ordenamento e, na sexta-feira, pode estar a subvertê-lo ao aprovar um PIN...

Tenho de ter muito boas razões para isso, tenho de dar público testemunho dessas razões e sou julgado politicamente por essas razões.

E acha que esse julgamento lhe é favorável?

Eu acho francamente que é favorável.

O que é que o Governo utiliza para classificar um projecto como de interesse público?

A lei parametriza pouco os termos em que este reconhecimento de interesse público é dado. É um poder que quem está legitimado para o fazer tem de exercer perante cada projecto concreto. Um projecto de grande relevância para o desenvolvimento económico de uma determinada região, que seja criador de volumes de emprego muito importantes, que possa fomentar a economia de uma região, mesmo sendo um projecto privado, tem manifestamente interesse público.

Aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete agrada a Nunes Correia

O ministro do Ambiente diz que ainda é cedo para o Ministério do Ambiente se pronunciar. Mas afirma que a proposta da CIP para o novo aeroporto de Lisboa tem “grande credibilidade” em termos ambientais. A Portela + 1, ao contrário, encerra problemas.

Tendo em conta a sensibilidade ambiental da Margem Sul do Tejo, a construção ali de uma cidade aeroportuária não o preocupa?

É muito cedo para o Ministério do Ambiente se pronunciar em definitivo e de forma categórica, como lhe cabe fazer. Nós temos a última palavra, porque a lei assim o determina.

Não vai abdicar dela?

Claro que não. Mas o que quero dizer, uma vez que está a puxar à grande celeuma do aeroporto de Lisboa — que é um tema que eu gosto de discutir, embora com a precariedade de algo que ainda não sabemos bem o que é —, é o seguinte. Em primeiro lugar, a Ota tem impactes ambientais, seguramente. Mais: fala-se muito agora em Portela + 1. A Portela tem tremendos impactos ambientais. Isto às vezes é esquecido. Às vezes é esquecido que retirar o aeroporto da Portela tem mais-valias imensas. Mas vamos ao essencial. Quando a opção era construir o aeroporto dentro ou muito próximo da área protegida, como era o caso do Montijo ou Alcochete, junto ao estuário, ou então aquelas localizações que foram faladas, o Poceirão, devo dizer-lhe que essa opção da Margem Sul, para mim, era altamente questionável.

Em que é que esta nova opção agora é diferente?

É que hoje se fala da opção Alcochete como se ela estivesse de facto em Alcochete. Ela está no Campo de Tiro de Alcochete, mas a implantação do aeroporto é numa zona significativamente afastada de Alcochete propriamente dito. O aeroporto que hoje se chama de Alcochete nem sequer é no concelho de Alcochete. É em Benavente-Montijo. E não é o Montijo litoral, é aquela parte do Montijo que fica no interior, já quase a caminho de Vendas Novas.

É uma opção sustentável do ponto de vista ambiental?

Eu não me posso substituir aos estudos que será necessário fazer. Mas a minha percepção é que essa nova localização que tem sido apresentada, no sítio onde está implantada, resolve muitos, mas muitos, dos problemas que as localizações antigas tinham. E nesse sentido é uma opção que ganha grande credibilidade. Eu recordo que a opção pela Ota foi fortemente determinada por razões ambientais. Nessa altura, não se falava na desafectação de uma zona de tiro, de que hoje a Defesa já disse que está disposta a abdicar. Os estudos de impacte ambiental depois dirão se os impactos que o aeroporto nessa zona [Alcochete] colocam são considerados fatais ou insuperáveis ou se são considerados aceitáveis. Lisboa precisa de um aeroporto. A política de ambiente serve para encontrar a melhor localização e, admitindo que se vai fazer um aeroporto, procurar que ele se faça com um mínimo de impactos, e compensando os impactos que sejam imprescindíveis ter.

Foi presidente do LNEC. O LNEC tem meios para fazer a avaliação de questões ambientais?
Não tenho a mais pequena dúvida de que tem. Felizmente, o meu colega das Obras Públicas deu possibilidade ao LNEC de ter como consultores alguns dos melhores especialistas mundiais. Nomeadamente na questão candente dos pássaros. O LNEC é a cabeça do processo, e é uma cabeça que dá grandes garantias de isenção e que tem um imenso sentido de responsabilidade.
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"O Plano de Estabilidade e Crescimento e as autoridades europeias fracassaram quando foram complacentes com o seu não-cumprimento. Não agora, mas durante o 'bom tempo' económico."
Vítor Bento, jornal "Público", 8-2-2010
 

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