| Paulo Pimenta/PÚBLICO (arquivo) |
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| Daniel Bessa, ex-ministro e presidente da Escola de Gestão do Porto, lembrou que "não se pode ter tudo ao mesmo tempo" |
Os patrões do sector têxtil e do vestuário português querem que o Governo ponha travão às expectativas de aumentos salariais para os próximos anos e que suprima alguns feriados do calendário nacional.
É a única forma, segundo Paulo Nunes de Almeida, o presidente da Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal (ATP), de "garantir a competitividade das empresas de mão-de-obra intensiva, em particular as confecções".
Falando na abertura do 9.º Fórum da Indústria Têxtil, que decorreu ontem no Citeve, em Vila Nova de Famalicão, e de olhos voltados para o ministro da Economia, Manuel Pinho, o presidente da ATP argumentou que o objectivo de o Governo chegar a 2011 com um salário mínimo de 500 euros mensais - o que implica uma actualização anual de 5,5 por cento - coloca "uma boa parte das empresas numa situação de não poder continuar a laborar, pois é-lhes impossível acomodar o aumento de custos, os quais jamais se poderão repercutir nos preços praticados aos clientes, em especial nos mercados internacionais".
"Não nos parece justo que o Governo proponha para os funcionários públicos e para as pensões sociais aumentos de pouco mais de dois por cento, de acordo com a inflação prevista, e, ao mesmo tempo, obrigue as empresas a realizar aumentos na casa dos cinco por cento. Será que estamos a voltar à célebre teoria do 'oásis'?", questionou o presidente da ATP, que representa 730 empresas do sector.
Mas as reivindicações não se ficaram por aqui. Além de preconizar a redução do número de feriados, e como forma de contrabalançar a subida do salário mínimo, a ATP reclamou a isenção dos descontos para a Segurança Social das horas suplementares, a limitação dos montantes globais das indemnizações por despedimento, bem como a alteração do pagamento do total do rendimento anual dos trabalhadores de 14 para 12 meses, ou seja, o fim dos subsídios de Natal e de férias.
São medidas necessárias, na opinião de Daniel Bessa. "Não se pode ter tudo ao mesmo tempo e se há problema que tem atingido a economia portuguesa é o encarecimento excessivo dos últimos anos e isso tem muito a ver com a evolução dos salários reais", declarou ao PÚBLICO o presidente da Escola de Gestão do Porto, mostrando-se igualmente a favor da supressão de alguns feriados.
Já o ministro da Economia, Manuel Pinho, preferiu passar ao lado dessas questões. Mas, na sua intervenção inicial, não se coibiu de responder a algumas das críticas que tinham sido deixadas pelo presidente da ATP, nomeadamente as relacionadas com a factura da energia que alegadamente desacelera a capacidade concorrencial das empresas portuguesas. "Temos custos de energia mais baixos do que a média europeia, não são mais baixos do que em Espanha, mas a verdade é que o aumento foi de apenas 2,9 por cento, o que exigiu um esforço muito grande, e aqui o óptimo é inimigo do bom", reagiu.
Quanto às queixas relativas aos atrasos na regulamentação do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) - que enquadra os 21,5 mil milhões de fundos comunitários a que Portugal terá direito entre 2007 e 2013 - Pinho anunciou que as linhas fundamentais dos PO Competitividade e PO Regional serão apresentadas na próxima semana e que, a partir do dia 15 de Novembro, as empresas poderão concorrer a esses fundos através da Internet, "de um modo muito simples".
a O plano estratégico do sector têxtil e de vestuário só deverá ficar concluído no final do ano, mas já há uma certeza clara: as empresas portuguesas do sector têm de se articular com as congéneres da Galiza e para isso vai ser criado um mega cluster. O objectivo é aliar o "know how" da indústria nacional com a distribuição de moda e das marcas galegas.
"Na Galiza há uma série de competências que temos a menos e que são importantes, nomeadamente em matéria de distribuição e de marca, e os galegos parece que vêem em Portugal capacidade industrial e conhecimento operacional que lhes interessa", precisou Daniel Bessa, referindo que o projecto é promovido pela ATP com o apoio da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. Contrariando uma ideia feita, o autor do plano estratégico do sector, considerou que a sobrevivência das empresas têxteis portuguesas não passa pela criação de marcas. "Uma marca é uma coisa muito boa, todos admiramos uma Zara, mas esse é um caminho difícil, caro e com muito risco", disse, considerando que à maioria das empresas portuguesas "falta escala" para o percorrerem. Em alternativa, Bessa sugeriu apostas em sectores como o da produção de têxteis técnicos, "onde é mais fácil construir uma reputação".